
A Filosofia Medieval Árabe no Brasil e Mundo Lusófono
Entrevista com Tadeu Verza
By Sarah Virgi
Setembro 2024 – A filosofia medieval árabe, ainda pouco explorada no Brasil e no mundo lusófono, depende de traduções para o português como um passo crucial para ampliar o seu estudo e compreensão, tanto do lado académico como entre o público geral. Tadeu Verza é um dos principais investigadores desta área no Brasil e co-fundador da coleção Estudos em História da Filosofia Árabe e Islâmica, que publica verbetes sobre autores e tópicos da história da filosofia árabe das principais enciclopédias traduzidos para português e acessíveis a todos. Nesta entrevista, Verza relata que o seu interesse pela filosofia islâmica surgiu através da Maimónides, um dos mais importantes nomes do mundo islâmico no período medieval, e que a ausência de especialistas no Brasil o motivou a enveredar por essa linha de pesquisa. Hoje, Professor no departamento de Filosofia da Universidade Federal das Minas Gerais, defende que o trabalho de tradução é essencial para disponibilizar fontes primárias e secundárias de qualidade, incentivando novos alunos e investigadores a explorarem este domínio da história da filosofia, ainda que o interesse esteja em crescimento no Brasil. Nesta entrevista, conta-nos um pouco acerca do seu percurso académico e dos seus projetos.
Sobre Tadeu Verza

Sou professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerias desde 2009. Fui professor da Universidade Estadual de Maringá (2001-2005) e da Universiade Federal da Bahia (2005-2009). Obtive meu doutorado em 2004 e meu mestrado em 1998, ambos pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Meu interesse é em filosofia árabe-islâmca com foco na metafísica e na filosofia da natureza, mas também desenvolvo pesquisa sobre a eternidade do mundo em autores como Averróis, al-Ghazali, Maimônides, Gersônides e Tomás de Aquino.
Recentemente, publiquei a tradução do árabe para o português do Livro das causas e do Livro da maçã para o Obras Completas de Aristóteles, projeto promovido pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e o primeiro volume dos Estudos em história da filosofia árabe e islâmica, ambos em coautoria com Meline Sousa. Atualmente estou traduzindo o Tratado sobre a criação da Suma de Teologia de Tomás de Aquino e, com Meline Sousa, o Secretum secretorum do árabe para o português.
A Entrevista
Sarah Virgi: Pode falar-nos um pouco acerca do seu percurso? O que o levou à filosofia árabe e islâmica?
Tadeu Verza: Fui levado à Filosofia Árabe-Islâmica pela Filosofia Judaica. Lembro-me que na disciplina de Filosofia Medieval (1993), sobre Tomás de Aquino, o professor Carlos Arthur, que viria a ser meu orientador, mencionou Maimônides no contexto da atribuição divina. Fui procurá-lo no final da aula para perguntar o motivo de não o estudarmos na graduação e a resposta foi que não tínhamos especialistas nesta área. A partir de então comecei a pesquisar sobre Maimônides e esta pesquisa me levou, como não podia deixar de ser, à Filosofia Árabe-Islâmica, tanto que meu desejo passou a ser o de trabalhar com Averróis. Porém, naquela época, não tínhamos disponível nas bibliotecas praticamente nenhuma bibliografia sobre ele. Portanto, para ficar no mesmo ambiente filosófico, dediquei-me a estudar no mestrado (1995) Maimônides e a sistematicamente reunir bibliografia. Em 1998 ganhei uma bolsa da Embaixada do Kuwait no Brasil para estudar árabe na Universidade do Kuwait e lá pude adquirir fontes primárias e secundárias que me permitiram, ao voltar, ingressar no doutorado tendo Averróis como autor.
SV: Que aspeto desta área de estudos ou que autor do mundo islâmico o fascina mais?
TV: Desde o início de minha graduação meu interesse foi Filosofia Medieval. Os termos em que as discussões se davam sempre me fascinaram, especialmente as no âmbito da filosofia da natureza e da metafísica. A Filosofia Árabe-Islâmica despertou minha curiosidade exatamente por não ser tratada na graduação ou na pós-graduação e eu notar que havia ali um mundo a ser explorado, e que se mostrou muito maior do que à primeira vista havia imaginado. O kalam, o hadith, as escolas de jurisprudência, o ismaelismo, causaram, e ainda causam, surpresa, pela riqueza e complexidade. Quanto à filosofia, atualmente Avicena é o autor ao qual mais me dedico, não apenas devido à estrutura do pensamento dele e do sistema que ele constrói, mas por entender que de fato há uma Filosofia Árabe-Islâmica que pode ser dividida entre antes e depois dele. Avicena é aquele gigante sobre cujos ombros podemos ver mais ao longe.
SV: Qual é a situação atual desta área de estudos nas universidades do Brasil?
TV: A Filosofia Árabe-Islâmica não causa mais estranhamento no Brasil, mas ela ainda é incipiente. Tivemos nos últimos anos algumas teses e dissertações sobre o tema, mas raras, e se medirmos a expressão da Filosofia Árabe-Islâmica pelos professores de universidades que atuam na área, estamos falando, até onde sei, dos professores Meline Sousa, Francisca Galileia, Edrisi Fernandez, Jamil Iskandar e Miguel Attie, lembrando a contribuição da professora Rosalie Pereira.
SV: O Tadeu é co-fundador da coleção entitulada “Estudos em história da filosofia árabe e islâmica”. Como nasceu este projeto? E qual é o objetivo de traduzir artigos da SEP para português?
TV: A coleção Estudos em história da filosofia árabe e islâmica nasce da necessidade de proporcionar aos alunos de graduação em filosofia e ao público interessado acesso a textos de especialista e que tragam o estado da arte do tema abordado. A professora Meline Sousa, que também organiza a coleção, e eu, recomendamos frequentemente a nossos alunos os verbetes da SEP e, conversando sobre bibliografia para nossos cursos, surgiu a ideia de traduzir estes verbetes, uma vez que a ampla maioria dos alunos não lê inglês. Entramos então em contato com a SEP, na figura do professor Zalta, que muito gentilmente nos autorizou a publicar os verbetes, e também com os respectivos autores, que foram bastante receptivos ao projeto. Os Estudos, – que têm distribuição gratuita, publicados pela Editora do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFMG -, terão três volumes, contendo ao todo 35 verbetes. Estamos no momento concluindo o segundo, cuja primeira parte devemos publicar em outubro, e finalizar todos eles no segundo semestre de 2025.
SV: Além disso, também é tradutor de textos medievais árabes. Porém, infelizmente, quando um académico apresenta uma candidatura para financiamento de um projeto de investigação, normalmente as traduções não são tidas em conta (ou, pelo menos, não tão apreciadas quanto artigos de investigação). Como é que caracterizaria o trabalho de tradução? É um trabalho filosófico ou não, na sua opinião?
TV: Aqui no Brasil as traduções também não têm particular destaque. Isso se deve em parte por reproduzirmos nas ciências humanas a mesma lógica das ciências duras e a ideia de que traduzir é um simples verter para outra língua. Mas a situação evoluiu positivamente nos últimos anos e as traduções em filosofia em geral amadureceram muito e se multiplicaram. No caso do árabe, pode-se ler em português uma variedade ampla de literatura, o que há pouco tempo não era possível. Trata-se de um momento bastante rico.
No meu caso, quando traduzo, o objetivo primeiro é a clareza conceitual tendo em vista o sistema do autor. Mas talvez por muito do árabe que aprendi dever-se às traduções que li comparando-as com o original, e entendendo que neste momento as traduções que faço devem ter caráter formativo, tento produzir um texto legível e compreensível para o leitor leigo, mas que principalmente seja útil para aquele que está lendo a tradução com o original do lado, para aquele que, interessado na Filosofia Árabe-Islâmica, tem a tradução como uma ferramenta para compreensão da fonte primária no original. Portanto, busco ser o mais literal possível e manter uma tradução padrão para cada termo chave, indicando em notas quando não for o caso e o motivo. Se uma passagem é particularmente desafiadora e a inteligibilidade é ameaçada pela literalidade, se a opção que resta é uma paráfrase, ela está sempre acompanhada de uma nota. Assim, entendo que a tradução é um trabalho filosófico. Apenas um pesquisador em filosofia, alguém que conhece a obra, o autor e o contexto intelectual, é capaz de verter adequadamente não apenas o texto, mas os emaranhados de conceitos que uma obra de filosofia expressa de forma viva.
SV: Na sua opinião, qual é a importância de traduzir estes textos para português? Que impacto é que espera deste trabalho no mundo académico lusófono?
TV: Traduzir obras da Filosofia Árabe-Islâmica para o português é o primeiro passo se quisermos que esta área possa despertar o interesse de alunos e criar o desejo de se tornarem pesquisadores. Se elas não estiverem acessíveis, se os professores, ainda que como bibliografia complementar, não tiverem um material que possam recomendar a seus alunos ou eventualmente usar em seus cursos, como as importantes traduções da professora Catarina Belo, dificilmente o cenário mudará. Minha atividade como tradutor nasceu também desta necessidade de fornecer a meus alunos fontes primárias confiáveis e fontes secundárias de qualidade.
SV: Por fim, que obras de filósofos medievais do mundo islâmico acha que deveriam ser traduzidas para português e que ainda não foram traduzidas?
TV: Seria um pouco de ousadia fazer uma lista. Porém, ouso dizer que a tradução da “Metafísica”, de Avicena, seria um divisor de águas. Mas certamente quaisquer traduções são mais do que bem-vindas e desejadas.
©️Sarah Virgi | “A Filosofia Medieval Árabe no Brasil e Mundo Lusófono”, IPM Monthly 3/9 (2024).
